sexta-feira, 29 de julho de 2011

Vocês acham que isso é brincadeira?

Tássia Rabelo

Recentemente estava em um bar com um amigo que me mostrou uma bizarrice das antigas. Um episódio do quadro da TV Pirata denominado TV Macho apresentado por Guilherme Karan. O quadro em si já poderia ser visto com inúmeras ressalvas, pois tratava-se de uma sátira ao programa TV Mulher que, apesar de em geral reforçar uma visão conservadora do que é ser mulher, cumpriu um importante papel social ao quebrar vários tabus falando de sexo e orgasmo feminino na televisão, no quadro apresentado pela sexóloga Martha Suplicy.

No episódio em questão o apresentador do programa, Zeca Bordoada, entrevista Edicléia Carabina, personagem de Regina Casé que é chefe de uma torcida organizada do Botafogo que critica a diminuição da violência no futebol. Edicléia é apresentada como uma pessoa que, apesar de ser mulher, é merecedora da admiração dos telespectadores da TV Macho.

O que mais chamou minha atenção no episódio foi o seu desfecho. Quando questionada sobre seu olho roxo, Edicléia responde que após se queimar com óleo quente enquanto preparava a comida, começou a chorar e em seguida apanhou do marido sob a justificativa de que ela deveria parar de ser “fresca”. O programa é finalizado com afirmação dela de que: “meu lado mulher ta aí para isso né, para apanhar” seguida de uma fala entusiasta do apresentador que ressalta que ela é um grande exemplo a ser seguido em casa.

Após assistir esse vídeo, minha sensação foi um misto de indignação e de alívio diante do reconhecimento de que, em tempos de Lei Maria da Penha e ofensiva contra a violência doméstica, tal programa “humorístico” não seria visto como legítimo nos dias de hoje. Minha conclusão foi de que em pouco mais de vinte anos a luta das mulheres no Brasil avançou de tal forma que conseguiu alterar alguns padrões culturais há muito consolidados.

Infelizmente, bizarrices da atualidade me fizeram perceber que muito ainda precisa ser feito e que necessitamos ficar sempre alerta. Depois da polêmica que envolveu o humorista Danilo Gentili sobre uma piada que este havia feito sobre estupro, temos um novo fato em pauta.

O programa Zorra Total está exibindo um quadro que tem atingido picos de audiência nas noites de sábado, trata-se do “Metrô Zorra Brasil”. Em vários episódios do programa uma cena se repete. Um homem se encosta na personagem Janete e se aproveita lotação do vagão para bolinar a mulher de várias maneiras. Ao reclamar da situação com sua amiga esta responde que ela deveria aproveitar, pois não está podendo escolher.

Para muitos a crítica pode soar como preciosismo, mas na minha concepção, humor de verdade não deve servir para diminuir as pessoas, muito menos para disseminar práticas odiosas como o abuso sexual. Não tenho dúvida de que tal “piada” não tem a mínima graça para as mulheres que levantam cedo para ir ao trabalho, e que além de enfrentar um transporte público abarrotado, ainda convivem com abusos diários cometidos por pessoas que se aproveitam de uma situação de precariedade para agredir sexualmente o outro.

Recentemente, Brasil adentro e mundo a fora, nos organizamos na Marcha das Vadias. Fomos às ruas dizer que não aceitamos ser desrespeitadas, violentadas, assediadas e cerceada dos nossos direitos por ser mulher. Nesse momento cabe a nós divulgar as manifestações contrárias, abarrotar as caixas de e-mails dos editores do programa e se necessário ir novamente as ruas para dizer a Rede Globo que é inadmissível que semanalmente uma das formas de abuso mais recorrentes em nosso país seja naturalizada e transformada em chacota.

Não há revolução social sem revolução cultural. Esses não são os únicos casos em que a TV brasileira cumpre o papel de perpetuar signos do sistema patriarcal, racista e heteronormativo. Seguir nos omitindo diante de situações como essas é impedir a construção de uma sociedade em que o respeito pelo outro seja de fato o principal valor a guiar nossas ações.

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”

Rosa Luxembrugo

Tassia Rabelo é membro da Executiva Nacional da Juventude do PT e militante do movimento Fora da Ordem.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

MULHER X MÍDIA


Cada vez mais vemos em nossa sociedade a ditadura da beleza imperando, a mídia a todo o momento despeja em nossas mentes o padrão de mulher aceito, e faz isto através de novelas, propagandas,programas de auditório, etc., usam e abusam da exposição do corpo de mulheres para dar audiência a seus programas e lucro para seus produtos. Os reflexos destas práticas na sociedade são os autos índices de bullings sofrido por mulheres. Nós mulheres temos que repudiar tais praticas e cada vez mais lutar pela democratização dos meios de comunicação.

Hoje em dia, nós mulheres, somos agredidas diariamente pela grande mídia,controlam nossas mentes dizendo o que temos que ser e ter, banalizamos muitas práticas horrendas, como por exemplo o programa "Pânico na TV", ele faz em rede aberta tortura física com mulheres,banalizam o sexo e são extremamente machistas... Mas a maoria da população adora este programa, prova disso é a alta audiência do programa... Outro escroto da grande mídia é o Rafinha Bastos, CQC, o mesmo esta sendo investigado pelo Ministério Publico por dizer a seginte frase em uma entrevista...“toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra c… Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus”. E foi além, dizendo que o homem “que cometeu o ato merecia um abraço, e não cadeia”, Este é mais um energúmeno que faz sucesso em rede nacional....

Temos que dizer CHEGA ! de sermos agredidas, manipuladas.Não somos só peito. coxa e bunda....

Sociedade: Mulher, negra e pobre - A tripla discriminação

por Benilda Regina Paiva de Brito*

Quando falamos em mulher negra no Brasil é importante traçarmos seu perfil para que possamos demarcar diferenças com as visões estereotipadas.

Nós, as mulheres negras brasileiras, somos 25% da população. A maioria de nós é analfabeta ou semi-analfabeta. Nossa remuneração está em geral na faixa de um salário mínimo. Muitas de nós chefiam família em maior número que as brancas. Tal perfil demonstra que a maioria das mulheres negras vive em condição de pobreza.

O Brasil é o país de maior população negra fora da África; historicamente um país escravocrata onde ainda perduram as idéias racistas nas instituições governamentais e na sociedade em geral. Mesmo quando a pessoa negra ainda não adquiriu a consciência do racismo, ser negra em nosso país significa viver em condição de extrema desigualdade social e racial.

Considerando que a mulher no Brasil, até a Constituição de 1988, era legalmente cidadã de segunda categoria, ser mulher negra e pobre significava não ter os direitos mínimos de cidadania assegurados juridicamente.

É no contexto descrito que precisamos situar a denominada "questão da mulher negra"; como ela surgiu, se estabeleceu e chegou ao que hoje se convencionou chamar de Movimento de Mulheres Negras, a luta organizada contra a tripla discriminação.

Durante muitas décadas, o movimento feminista trabalhou com a idéia da "irmandade" das mulheres; que a opressão da mulher, ou, como se diz hoje, a opressão de gênero, atingia de forma igualitária e indiferenciada a todas as mulheres. Graças à presença e ao trabalho de feministas negras esta idéia está superada. Hoje, é ponto pacífico que, embora a opressão de gênero seja algo comum a todas as mulheres nas sociedades patriarcais, ela é sentida diferentemente porque entre nós, as mulheres, existem diferenças de classe e de raça. E o racismo só é comum às mulheres "não-brancas".

Podemos aplicar a mesma análise aos homens negros, mais especificamente ao movimento negro. Durante muitos anos, as mulheres negras que se assumiam feministas foram acusadas de dividir a luta anti-racista, tão-somente porque diziam que era impossível a irmandade entre os negros porque, parafraseando Elizabeth Lobo, a população negra, assim como a classe operária, tem dois sexos e um deles era oprimido. Faltava ao Movimento Negro considerar as especificidades das mulheres negras. Hoje, cresce nele a compreensão de que é preciso considerar a perspectiva de gênero para fortalecer a luta anti-racista.

A síntese do papel desempenhado pelas feministas negras nos movimentos negro e feminista foi feita magistralmente por Suely Carneiro: "A luta das mulheres negras brasileiras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista. Este novo olhar feminista e anti-racista, ao integrar a tradição de luta do movimento negro e do feminista, afirma esta nova identidade política decorrente do ser mulher e negra.

O atual movimento de mulheres negras ao trazer para a cena política as contradições resultantes das variáveis raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos movimentos negros e de mulheres do nosso país, enegrecendo, de um lado as reivindicações das mulheres e, por outro, promovendo a feminização das propostas e reivindicações do movimento negro."

Mulher negra em dados

Trabalho

A maioria das análises históricas sobre trabalho feminino não se aplica às mulheres negras brasileiras, porque já chegamos no país na condição de trabalhadora escrava. Ser "dona-de-casa" é uma experiência que data de pouco mais de um século na vida das mulheres negras, que se juntou ao principal trabalho que estas vêm fazendo desde a época pós-abolição, ou seja ser empregada doméstica.

A pouca escolaridade e a falta de uma profissão considerada "qualificada" justificam o lugar que a mulher negra ocupa no mercado de trabalho: o mais desvalorizado socialmente e de pior remuneração. Considerando-se os rendimentos, conforme o Mapa do Mercado de Trabalho (IBGE, 1990), a média nacional em salários mínimos dos homens brancos era de 6,3 e a dos negros 2,9; as mulheres brancas ficavam com 3,6 e as negras com apenas 1,7.

O estudo do PNUD para o Brasil aponta que "o rendimento médio dos homens pretos e pardos correspondia em 1990, respectivamente, a 63% e 68% do rendimento dos homens brancos. A posição relativa da mulher preta e parda em relação à mulher branca é semelhante: seu rendimento correspondia a 68% da mulher branca."

Em 1980, apenas 1.757 mulheres negras ganhavam mais de 20 salários mínimos em uma População Economicamente Ativa de 4 milhões de mulheres negras.

O lugar da mulher negra no mercado de trabalho está demarcado no imaginário de chefias e profissionais de recursos humanos pelo estereótipo de beleza branca, a tão falada "boa aparência". Em funções como vendedora, recepcionista e secretária são exigidos determinados atributos estéticos, considerados exclusividades das brancas. Estas e as amarelas estão representadas de quatro a cinco vezes mais que as negras, com respectivamente 8,9%, 11% e 2,2%.

Educação

Dados do censo de 1980 demostram que 80% das mulheres negras estão na faixa dos que têm até quatro anos de estudo, enquanto que as brancas, na mesma faixa, eram 67%. Dados da PNAD (1987) informam que 62,7% das negras não terminaram o antigo curso primário e que as negras analfabetas eram o dobro das brancas.

Segundo pesquisas de Piza (1994), "as mulheres negras analfabetas ou de baixo nível de instrução compõem um enorme contingente de empregadas domésticas ou empregadas em funções consideradas domésticas.

As mulheres negras com maior escolaridade (até o segundo grau) vão apresentar uma trajetória ocupacional bem diferenciada das mulheres brancas do mesmo nível educacional.

A escolaridade não parece ser a determinante do padrão salarial das mulheres negras: é a ocupação manual mais especializada e a jornada de trabalho mais extensa que parecem determinar maior rendimento."

Violência

A violência contra a mulher historicamente é definida como espancamentos, estupro, assassinatos (violência doméstica e sexual). No caso das mulheres negras, a violência racial soma-se às outras faces, o que aprofunda as suas vivências em meio à violência, aqui iniciada com o tráfico de escravos negros. Este implicava a violência sexual perpetrada pelos senhores de escravos, seus familiares e agregados contra as mulheres negras, os estupros – considerados naturais, já que escravas não eram donas de seus corpos, além das lesões corporais do tronco e do pelourinho.

Atos violentos, como o machismo e o racismo atuais, visam desumanizar as mulheres, negar-lhes a condição de pessoas e transformá-las em "coisas". Por isso, sobre nós, mulheres negras, recaem apelidos como "bicha fedorenta", "macaca", "gambá" etc. A despersonalização é comprovada pelo fato de que quando as mulheres procuram os órgãos de proteção, em geral, não possuem mais seus próprios documentos e nem os dos filhos, pois na maioria das vezes eles foram rasgados, queimados ou estão em poder dos seus algozes. Estando sem documentos, simbolicamente, é como se elas não existissem e os filhos não lhes pertencessem.

A violência doméstica (cometida em casa pelo pai, filho e principalmente marido/ companheiro) é uma dura realidade no caso das mulheres negras. Dados preliminares do Benvinda – Centro de Apoio à Mulher da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, demonstram que, naquele município, 62% das mulheres que denunciam situação de violência são negras. Logo, cabe a este equipamento social ter especial atenção com o recorte racial da violência doméstica.

Banalizar a violência e suas decorrências tem sido a saída encontrada por agressores racistas e machistas para a busca de aliados sociais que possam comungar destes atos. Arnaldo Xavier, poeta negro de São Paulo, afirma que o único espaço de cumplicidade efetiva entre o homem negro e o branco é o machismo. Eles estariam de acordo e seriam cúmplices no direito que ambos se dão de oprimir, discriminar e desumanizar as mulheres brancas ou negras.

Saúde

Os estudos sobre saúde da população negra no Brasil são muito recentes e ainda poucos, portanto os dados são quase inexistentes. O documento final da Mesa Redonda sobre a Saúde da População Negra, promovida pelo Ministério da Saúde (1996) publicou um quadro sobre as doenças das populações afro-brasileiras, elaborado pelo prof. Dr. Marco Antônio Zago (1996):


"Nosologias das populações afro-brasileiras"

Condições geneticamente determinadas, dependentes de elevadas frequência de gene(s) responsável pela doença ou a ela associada Anemia falciforme, hipertensão arterial, diabete melito, deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase
Condições adquiridas, derivadas de condições sócio-econômicas e educacionais desfavoráveis e intensa pressão social Alcoolismo, toxicomania, desnutrição, mortalidade infantil elevada, abortos sépticos, anemia ferropriva, DST/Aids
Doenças cuja evolução é agravada ou o tratamento é dificultado pelas condições ambientais indicadas Hipertensão arterial, diabete melito, coronariopatias, insuficiência renal crônica, cânceres, miomas
Condições fisiológicas que sofrem interferência das condições ambientais citadas, contribuindo para sua evolução para doenças Crescimento, gravidez, parto, envelhicimento


Diante do quadro mencionado, é enorme a importância do "quesito cor" nos dados de identificação pessoal, sobretudo nos serviços de saúde. Nesse sentido, é de grande valor o decreto do Ministério da Saúde, de março de 1996, que dispõe sobre a padronização de informações sobre raça e cor dos cidadãos brasileiros e estrangeiros residentes no país.

Segundo Fátima Oliveira, as principais doenças com interfaces definidas com a saúde reprodutiva da mulher negra são: diabetes tipo II, miomas, hipertensão arterial e a anemia falciforme.

Hoje sabemos que a diabetes tipo I (infanto-juvenil/insulino-dependente) é mais comum em brancos e a diabetes tipo II (ou adulta/não-insulino-dependente) é prevalente em negros.

Os miomas uterinos são os tumores que mais acometem as mulheres, em geral entre a primeira menstruação e a menopausa. Quase sempre são benignos (menos de 1% dos miomas se tornam malignos). Pesquisa realizada por Souza (1995) concluiu que são altas incidência e reincidência de miomas nas mulheres negras pesquisadas e que a taxa de histerectomias (extração cirúrgica total do útero) nas negras foi de quase cinco vezes maior que nas brancas.

A hipertensão arterial é responsável por 12 a 14% das causas de todos os óbitos de adultos no Brasil. Sabe-se que a pressão arterial é mais alta nos homens e é prevalente em negros, de ambos os sexos. Em negros aparece mais cedo, é mais grave e mais complicada. A primeira causa de morte materna no Brasil é por toxemia gravídica, uma conseqüência da hipertensão arterial não controlada durante a gravidez. Donde podemos concluir que é muito provável que as mulheres negras sejam as mais atingidas pela mortalidade materna no Brasil.

A anemia falciforme é hereditária e é a doença genética mais comum da população negra no mundo. Segundo dados de Zago (1996), nasciam no Brasil cerca de 700/mil pessoas com doenças falciformes e existiam pelo menos 8 mil pessoas falcêmicas (possuem dois genes para anemia falciforme) e 2 milhões de pessoas com um gene da anemia falciforme.

Alves (1996) informa que foi de 2.387 o número total de óbitos declarados, de 1979 a 1995, cuja causa foi a anemia falciforme. Apesar de sabermos que este dado não é o retrato da realidade – sobretudo porque se o diagnóstico de anemia falciforme em geral não é feito, declarar anemia falciforme como causa de morte é uma raridade e um feito heróico –, o estudo citado conclui que "quase 80% dos doentes de anemia falciforme não completaram 30 anos de idade, enquanto 88% das pessoas que morreram em decorrência da doença não tiveram o registro correto de sua causa de morte".

Para Alves, "a primeira observação (grande mortalidade nos primeiros anos de vida) reflete a gravidade da doença; a segunda é muito mais preocupante, pois reflete, principalmente, a incapacidade do sistema de atenção à saúde (aí incluídos os profissionais médicos) de detectar a moléstia. A deficiência na detecção da doença tem, provavelmente, três causas fundamentais: a) falta de um programa de detecção sistemática da doença; b) falha da educação do pessoal de saúde para diagnosticar; c) morte de grande número de pacientes como conseqüência de complicações da doença sem assistência médica."

Diante desta realidade, a elaboração de diretrizes nacionais para a abordagem da doença é bem-vinda. O Programa de Anemia Falciforme (PAF) do Ministério da Saúde (1996) é visto como um sinal de boa vontade, de enfim dar uma atenção integral e digna às pessoas acometidas pela doença, além do que representa o atendimento de uma antiga reivindicação do Movimento Negro.

Um panorama da lutas
Enquanto mulheres negras em luta, estamos nós mesmas assumindo e traçando nosso destino histórico nessa nova sociedade que pretendemos construir: sem discriminação de qualquer natureza, seja sexual, social, racial ou de classe.

De 1988 até 1997 o movimento brasileiro de mulheres negras realizou sete eventos de caráter nacional. O último foi a Reunião Nacional de Mulheres Negras, em Belo Horizonte, em setembro de 1997, com 69 participantes de dez estados mais o Distrito Federal, cujas resoluções demonstram o "estado da arte" do movimento, suas definições e aspirações. Elas representam um guia para a ação e acenam com a possibilidade de modificar efetivamente o cenário racista e machista do nosso país.


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*Benilda Regina Paiva de Brito é militante do Nzinga-Coletivo de Mulheres Negras e coordenadora do Benvinda-Centro de Apoio à Mulher da Prefeitura de Belo Horizonte e da Regional Brasil na Rede de Mulheres Afrocaribenhas e Afrolatinas.



As resoluções da plenária final da Reunião Nacional de Mulheres Negras

A luta pela terra – terra para os remanescentes de quilombos – enfoque para a defesa das terras ameaçadas pelas barragens: "Terra sim, barragens não. Água para vida e não para morte". Defesa da terra e seu caráter social no campo, na zona urbana e a sua relação com a ecologia;

Educação – direito à educação pública, gratuita, universal e de qualidade que garanta a diversidade de gênero, étnica e cultural – enfoque para a manutenção pública da educação formal e destaque especial para a educação informal nos aspectos da negritude e da paternidade responsável;

Pela defesa das religiões e cultos afrobrasileiros;

Pelo direito à Saúde - Participar das lutas pelo direito à saúde e melhoria da qualidade de vida;

- Integrar a Campanha SOS SUS – em defesa do SUS - Sistema Único de Saúde, que vem sofrendo pesados ataques do projeto neoliberal em curso no país;

- Apoiar o Programa Nacional de Anemia Falciforme do Ministério da Saúde – PAF/MS, objetivando garantir a sua implementação global, contemplando as suas diretrizes diagnósticas, assistenciais, educativas, científicas e bioéticas – o que implica na não-aceitação de mutilações do referido programa;

Promover a atualização e a multiplicação do debate sobre Saúde e Direitos Reprodutivos segundo a perspectiva das mulheres negras brasileiras, visando a socialização de informações, a elaboração teórica e a organização das lutas em tal área;

Denúncia e combate a todas as formas de violência sobre a população negra
Destaque ao combate ao extermínio da população negra – enfoque para o combate à violência urbana, rural, doméstica, sexual e racial;

- Combate à violência doméstica, sexual e racial -- incluindo o monitoramento da atuação das Delegacias da Mulher;

- Integrar e desenvolver ações próprias na Campanha Nacional contra a Violência Doméstica e pela Paternidade Responsável;

Pelo Direito ao Trabalho
- Participação nas lutas contra os efeitos nocivos da globalização da economia;

- Garantia do trabalho doméstico sem discriminação – enfoque para o pleno emprego; combate ao desemprego, subemprego e à terceirização;

- Aprofundar a reflexão e a ação contra o neoliberalismo - Emprego sim, neoliberalismo, não. Fora FHC!

Pelo Direito à Moradia - maior empenho nas lutas pelo direito à Habitação – dando destaque à perspectiva e às necessidades de gênero agregadas ao recorte racial;

Sobre Formas de Organização:

1. Rede de Mulheres Afrocaribenhas e Afrolatino-americanas -- conforme acordo realizado em Campinas, referendado pela Reunião de Belo Horizonte, as seis representantes brasileiras têm direitos e deveres iguais, realizando uma gestão coletiva, sendo todas titulares;

2. Consideramos legítima a participação das mulheres negras em diferentes instâncias organizativas, em âmbito local, regional, nacional e continental. Logo, é legítima a participação das pessoas em caráter individual ou como membro de um grupo/entidade em todas as formas de organização apontadas, tais como: rede, fórum, Conen e articulação etc;

3. Recomendamos o empenho de cada uma de nós na reorganização e no fortalecimento dos Fóruns Estaduais de Mulheres Negras;

4. Aprovamos, por unanimidade, a realização do III Encontro Nacional de Mulheres Negras antes do ano 2000.